Ana Teresa Alves

A Dupla Hélice, de James D. Watson

Espero não estar a ser muito otimista ao pensar que nos tempos de hoje haverá poucas pessoas que não conheçam pelo menos o termo DNA, que não conheçam a imagem da sua estrutura de dupla hélice e que não lhe associem os nomes de (James) Watson e (Francis) Crick. Ambos, juntamente com Maurice Wilkins, receberam em 1962 o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina pela descoberta (em 1953) da estrutura desta molécula, onde está guardado todo o património genético de cada organismo vivo.

Talvez menos pessoas saibam que um destes cientistas, James Watson, escreveu em 1968 o seu relato desta descoberta num livro chamado precisamente The Double Helix, em português A Dupla Hélice. Recentemente, a Gradiva reeditou o livro, que li no último mês e do qual não poderia deixar de falar aqui por várias razões. Não há muitos cientistas a escrever as suas autobiografias ou relatos das suas descobertas deste tipo. O relato é sui generis (leia, p.f., e retire as suas conclusões), pois o seu autor, que no ano da descoberta tinha apenas 25 anos, tão depressa fala do seu trabalho, como de festas, raparigas bonitas e bebidas. E é datado (espera-se que hoje em dia não falasse das mulheres nos mesmos termos).

Tão fascinantes de ler quanto o relato são os prefácios que o precedem bem como o dossier científico que se lhe segue, as reações dos colegas de Watson, as críticas e os comentários ao livro publicados em jornais e revistas norte-americanos e britânicos e excertos de relatórios posteriores do próprio Watson. Tudo matéria de interesse para todos os que se preocupam com a ciência, com a receção da mesma e com a sua história.

A ciência é trabalho, é estudo, é competição e as grandes descobertas científicas envolvem tudo isto e ainda dependem crucialmente do ambiente científico e das pessoas com que se trabalha, como este livro vem mais uma vez mostrar.

PS. Pena é que, num livro destes e numa editora como a Gradiva, o trabalho de revisão pareça ter sido tão descurado. Entre outras gralhas, encontramos “pretenciosos” em vez de “pretensiosos”, “recontro” em vez de “reencontro”, “aminácidos” em vez de “aminoácidos”, e “Normal Podhoretz” em vez de “Norman Podhoretz”).

Leave a Reply

Discover more from Ciência2Letra

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading