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  • Recursos de divulgação científica para escolas e bibliotecas

A Ciência na Não Ficção

  • Feynman

    Ana Teresa Alves

    Além de físico, vencedor de prémio nobel e professor, Richard Feynmam foi, ele próprio, um grande divulgador e comunicador de ciência. Mas (ainda) não é dos seus livros que falo aqui hoje. Falo antes de um livro que incide sobre a sua vida e que se chama precisamente Feynman, da editora Gradiva.

    Nesta obra, escrita sob a forma de banda desenhada, Jim Ottaviani e Leland Myrick dão-nos a conhecer a participação de Feynman  no projeto Manhattan em Los Alamos durante a Segunda Guerra Mundial, a sua posterior carreira como professor e investigador na Universidade de Cornell e no Caltech, a sua lecionação de disciplinas introdutórias de física, o que o levou a refletir sobre como explicar de forma acessível aquilo que ensinava, das suas palestras e da sua participação na comissão que investigou o desastre do Challenger em janeiro de 1986, incluindo a experiência que fez em direto para demonstrar o problema com as anilhas dos foguetões de lançamento.

    Ficamos ainda a saber do seu talento para arrombar cofres, da sua passagem por uma escola de samba no Brasil, do seu entusiasmo ao ler o livro de que falei num artigo anterior, A Dupla Hélice, para além de aspetos mais pessoais, tais como como conheceu e quem foram as suas mulheres e dos cancros que enfrentou.

    Inclui ainda uma lista, que os autores classificam como “quase completa”, de bibliografia sobre a vida e o trabalho de Feynman.

    A cereja em cima do bolo: as belíssimas ilustrações que acompanham o texto.

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    Ago 31, 2026
  • História da Escrita

    Ana Teresa Alves

    História da Escrita, de Löic Le Gall e Karine Maincent

    Termina com uma secção que nos interroga de forma muito pertinente com a seguinte questão “Amanhã escreveremos sem mãos?”, o que não nos deve surpreender – num tempo em que vemos os mais novos a ditar mensagens para os telemóveis e em que os editores de texto nos permitem que ditemos o que queremos escrever -, mas que nos deve fazer pensar.

    Refiro-me ao livro História da Escrita, com texto de Löic Le Gall e ilustrações  de Karine Maincent, editado em Portugal pela Lilliput. Trata-se de uma obra que nos transporta desde o tempo antes da escrita até à atualidade, explicando-nos como surgiu a escrita, os instrumentos e os diferentes suportes que foram sendo utilizados ao longo do tempo para escrever, os diversos sistemas de escrita que diferentes povos criaram, os alfabetos, a forma como surgiram os sinais de pontuação,  as maiúsculas e minúsculas e a imprensa, só para referir os aspetos principais.

    Como se isto não fosse suficiente, faz-nos refletir sobre o ato físico de escrever e a sua importância, sobre a circularidade na história ou sobre como o passado nos revisita tantas vezes (voltaremos a um tempo em que a palavra oral se sobrepõe à escrita?).

    Mais um livro perfeito, e destinado a todas as idades.

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    Ago 23, 2026
  • Os erros

    Ana Teresa Alves

    Benditos Erros, de Soledad Romero Mariño e Montse Galbany (Minotauro)

    Ninguém gosta de errar, mas, por muito que nos custe, não é possível viver sem cometer erros. E a ciência não é exceção, muito pelo contrário, até porque os cientistas também são seres humanos. E até “acertarem”, colocaram inevitavelmente hipóteses erradas.

    Contudo, houve erros que, graças aos cientistas que os cometeram, foram providenciais e levaram a importantes descobertas e invenções.

    É de situações desse tipo que nos fala o livro Benditos Erros, de Soledad Romero Mariño e Montse Galbany. Para além disso, faz-nos refletir sobre o erro e o seu papel na ciência.

    Com belas ilustrações, é um livro para todas as idades.

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    Ago 17, 2026
  • A Dupla Hélice

    Ana Teresa Alves

    A Dupla Hélice, de James D. Watson

    Espero não estar a ser muito otimista ao pensar que nos tempos de hoje haverá poucas pessoas que não conheçam pelo menos o termo DNA, que não conheçam a imagem da sua estrutura de dupla hélice e que não lhe associem os nomes de (James) Watson e (Francis) Crick. Ambos, juntamente com Maurice Wilkins, receberam em 1962 o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina pela descoberta (em 1953) da estrutura desta molécula, onde está guardado todo o património genético de cada organismo vivo.

    Talvez menos pessoas saibam que um destes cientistas, James Watson, escreveu em 1968 o seu relato desta descoberta num livro chamado precisamente The Double Helix, em português A Dupla Hélice. Recentemente, a Gradiva reeditou o livro, que li no último mês e do qual não poderia deixar de falar aqui por várias razões. Não há muitos cientistas a escrever as suas autobiografias ou relatos das suas descobertas deste tipo. O relato é sui generis (leia, p.f., e retire as suas conclusões), pois o seu autor, que no ano da descoberta tinha apenas 25 anos, tão depressa fala do seu trabalho, como de festas, raparigas bonitas e bebidas. E é datado (espera-se que hoje em dia não falasse das mulheres nos mesmos termos).

    Tão fascinantes de ler quanto o relato são os prefácios que o precedem bem como o dossier científico que se lhe segue, as reações dos colegas de Watson, as críticas e os comentários ao livro publicados em jornais e revistas norte-americanos e britânicos e excertos de relatórios posteriores do próprio Watson. Tudo matéria de interesse para todos os que se preocupam com a ciência, com a receção da mesma e com a sua história.

    A ciência é trabalho, é estudo, é competição e as grandes descobertas científicas envolvem tudo isto e ainda dependem crucialmente do ambiente científico e das pessoas com que se trabalha, como este livro vem mais uma vez mostrar.

    PS. Pena é que, num livro destes e numa editora como a Gradiva, o trabalho de revisão pareça ter sido tão descurado. Entre outras gralhas, encontramos “pretenciosos” em vez de “pretensiosos”, “recontro” em vez de “reencontro”, “aminácidos” em vez de “aminoácidos”, e “Normal Podhoretz” em vez de “Norman Podhoretz”).

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    Ago 9, 2026
  • Pontos cardeais

    Ana Teresa Alves

    Os quatro pontos cardeais, A inusitada história da orientação.

    Comprei o livro, porque foi recomendado num programa de televisão que reúne semanalmente pessoas que muito prezo, mas, ainda assim,  superou em muito as minhas expectativas, porque NÃO é apenas uma história da orientação. É ao mesmo tempo uma descrição e reflexão sobre como o Norte, Sul, Este e Oeste são referidos e valorizados em várias línguas e culturas, sobre as conotações que cada um deles tem, sobre a sua importância na construção de lugares de culto, na oração e celebrações religiosas, sobre os mapas em papel e sobre a transição destes para o GPS, entre outros aspetos.

    Começa por nos contar a história da fotografia conhecida como “Berlinde Azul”, tirada pelos astronautas da Apollo 17, que a NASA virou ao contrário para a conformar com a nossa geografia mental segundo a qual o Norte fica para cima, e termina questionando-nos sobre se na era dos dois pontos azuis, ou seja, na era do GPS, ainda continuaremos a precisar dos pontos cardeais.

    O seu autor é Jerry Brotton, um historiador e divulgador britânico, professor de Estudos Renascentistas na Queen Mary University, Londres. Em Portugal o livro está publicado pelas Edições 70.

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    Jul 31, 2026
  • O futuro ao virar da esquina

    Ana Teresa Alves

    Como a Inteligência Artificial nos pode ajudar na nossa saúde e bem-estar.

    É um livro sobre a Inteligência Artificial, mas começa de uma forma muito humana. Com o prefácio da mãe de um dos autores, que conta como vendeu as suas pulseiras de ouro para comprar um computador ao filho ao ver o brilho nos seus olhos quando ele olhava para uma dessas máquinas. É uma boa maneira de nos lembrar o que nos torna humanos e como essa humanidade também tem a ver com o amor, com a nossa relação com os outros, com o que fazemos por eles e com o que eles fazem por nós.

    Ao longo de todo o livro – Being in the Age of AI, A Guide to Personal Well-Being in the Era of Artificial Intelligence, de Poonacha Machaiah e Ara Suppiah – que se apresenta como um guia para o futuro, são os seres humanos e o seu bem-estar que constituem a principal preocupação dos autores. Embora nem sempre o nosso comportamento o reflita (somos bons a arranjar desculpas para não fazermos coisas), sabemos no geral que, por exemplo, o exercício físico, o contacto com os outros, a meditação, o descanso e o sono são importantes para a nossa saúde e para o nosso bem-estar no imediato e a longo prazo. E nestes aspetos a Inteligência Artificial pode ajudar-nos através de plataformas, dispositivos ou aplicações que permitem a monitorização do nosso corpo, que nos ajudam a meditar, a alimentar-nos melhor, a sentir-nos menos sós, a respirar ar mais puro, a gerir melhor as nossas emoções e até a praticar melhor o nosso desporto favorito.

    Ajudar a ciência a prevenir e a curar doenças, contribuir para o nosso bem estar e tornar-nos mais felizes é o melhor que a IA nos pode dar e talvez isso a redima, se não nos esquecermos da nossa humanidade.

    Being in the Age of AI, A Guide to Personal Well-Being in the Era of Artificial Intelligence, de Poonacha Machaiah e Ara Suppiah, Amplify Publishing.

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    Jul 22, 2026
  • Ver o invisível

    Ana Teresa Alves

    A ciência e os cientistas descobrem, revelam, mostram-nos coisas que nunca tínhamos visto, que não sabíamos que existiam ou que eram daquela forma. Alguns trabalham em laboratórios ou no meio da natureza. Uns observam através do microscópio outros apontam os telescópios para estrelas e planetas distantes. Mas tão essenciais quanto as experiências, os testes e os ensaios são as questões, as dúvidas, a criatividade e a imaginação. Sem tudo isto dificilmente se faz ciência. O livro Como ver coisas invisíveis, Observações, experiências, e perguntas de artistas, cientistas e outras pessoas com imaginação fala-nos precisamente disso. As autoras são a Isabel Minhós Martins (texto) e a Madalena Matoso (ilustração)da Planeta Tangerina. É um livro para todas as idades, lindo a todos os níveis.

    Descobri o livro, as autoras e as editoras no (infelizmente extinto) programa Todas as Palavras, da RTP, e passei a acompanhar tudo o que publicam. Nunca desiludem, e emocionam e surpreendem sempre.

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    Jul 18, 2026
  • About time too: Uma miscelânea de tempo

    Ana Teresa Alves

    Já falei, num outro post , sobre o Royal Observatory Greenwich, sobre as suas lojas e sobre os livros que lá comprei. E hoje falo de mais um deles, o About Time Too, A Miscellany of Time – um livro pequeno no formato, mas maravilhoso em todos os outros aspetos, que resulta, pelo menos em parte, de perguntas colocadas por visitantes desse Observatório.

    É constituído por textos curtos, alguns dos quais com pouco mais de meia dúzia de linhas e está ilustrado com pequenos desenhos tricolores (a preto, verde e branco). Aborda objetos, factos, palavras, conceitos ou situações, todos eles de algum modo relacionados com o tempo, o que nos confirma a a sua importância na nossa vida diária: os relógios de sol e os relógios de pulso, as celebrações de Ano Novo à volta do mundo, o tempo de Planck, a duração das noites de verão, os calendários, os anos bissextos, o jet lag, o tempo extra nos jogos de futebol, a duração dos dias nos outros planetas do sistema solar, os antigos serviços telefónicos que nos diziam as horas, a origem dos nomes dos dias da semanas e dos meses, a revista norte-americana Time, a longitude zero, entre muitas outras coisas.

    Termina com um breve secção intitulada “Time to Talk”, na qual ficamos a saber que a palavra “time” é o nome mais frequentemente usado em inglês e que nos dá uma série de expressões inglesas em que esta palavra ocorre, algumas delas transversais a outras línguas, como, por exemplo, “time is money”, “only a matter of time”, “sign of the times” ou “only time will tell”.

    Nada do que eu possa dizer substitui a experiência da leitura deste livro e eu não esqueço o entusiasmo e a avidez com que o folheei e fui lendo, algumas partes em voz alta para as pessoas que me acompanhavam, logo na viagem de carro de Greenwich para Londres. Era um livro sobre tempo dirigido a todos públicos. O livro que eu gostaria que existisse. E ali estava ele.

    PS. Se neste verão passar pelo Reino Unido, reserve umas horas para ir a Greenwich e ao Royal Observatory. Procure o About Time Too, A Miscellany of Time e leve-o consigo.

    Uma resposta a “About time too: Uma miscelânea de tempo”

    1. Avatar de
      Anónimo
      15 de Julho de 2026

      Muito interessante, e uma excelente recomendação!

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    Jul 11, 2026
  • Ilustração Científica

    Ana Teresa Alves

    Nem só de palavras se faz a comunicação e na ciência menos ainda. A ilustração, neste caso a ilustração científica, é um importante complemento da palavra e, tal como o conhecimento científico, também foi evoluindo ao longo do tempo.

    É disso e de muito mais que nos dá conta o livro Science Illustration, A History of Visual Knowledge from the 15th Century to Today, de Anna Escardó, autora que acumula uma formação em estudos literários com uma formação em engenharia mecânica.

    Publicada em 2022 pela Taschen, esta obra traça-nos a história da ilustração científica desde o século XV até aos nossos tempos, mediante a apresentação de ilustrações devidamente comentadas que representam o corpo humano, os corpos celestes, plantas e animais, conceitos matemáticos abstratos, o genoma humano, instrumentos científicos, a doença de Alzheimer, as regiões e os países, os fenómenos meteorológicos, a escala de Richter entre muitas outras coisas, abarcando, pois, diversas ciências. Ficam de fora as ciências sociais, não porque a autora as considere menos, mas porque acha que têm direito a um volume próprio.

    Todas as ilustrações apresentadas têm o seu quê de extraordinário, mas confesso que a que achei mais bela foi a da radiação de Hawking, a que mais me surpreendeu foi a da insulina, e a que desejei que lá não estivesse, pela tragédia que representa, a da doença de Alzheimer.

    O livro é belíssimo e fez-me refletir sobre como evoluirá a ilustração científica nos próximos séculos. Gosto de pensar que os ilustradores humanos não deixarão de existir, porque certamente continuará a haver artistas apaixonados que não abdicarão da sua arte e da sua paixão a favor de uma máquina.

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    Jul 2, 2026
  • Rovelli, mais uma vez

    Ana Teresa Alves

    There Are Places in the World Where Rules Are Less Important Than Kindness, de Carlo Rovelli, é o belo título inglês de um livro que reúne diversos textos relativamente curtos que este físico teórico e divulgador italiano escreveu e publicou, sobretudo, mas não só, em jornais do seu país entre 2012 e 2018.

    De Aristóteles, à relação entre ciência e literatura, passando pelos erros de Einstein, por Curie, por Darwin, por Roger Penrose, pela mente dos polvos e pelos buracos negros, os textos falam-nos de ciência, da sua história e dos seus agentes, mas, mais do que isso, fazem-nos refletir sobre a relação entre a ciência a religião, sobre a nossa relação com os outros seres humanos, sobre a nossa própria humanidade e sobre a beleza da nossa curta vida. Termina com um pequeno texto datado de abril de 2020, o início da pandemia da COVID-19.

    Se um livro nos marca, não nos esquecemos de onde nem de quando o lemos. E este, li-o na praia, em pleno verão (2021), um bom sítio para ler livros deste tipo, já que podemos alternar a leitura de um texto com um banho no mar ou simplesmente com a sua contemplação.

    Está já traduzido para português com a marca da Editora Objectiva. Leve-o, leve-o, leve-o consigo nas férias.

    Capa do livro 'There Are Places in the World Where Rules Are Less Important Than Kindness' de Carlo Rovelli, com fundo amarelo e texto em preto.

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    Jun 27, 2026
  • Mulheres cientistas

    Ana Teresa Alves

    Na ciência, tal como nos outros domínios de ação humana ou tal como simplesmente na vida, quando se alcança algo nem sempre se reconhece publicamente a importância de todos aqueles que contribuíram para que tal acontecesse. Por esquecimento ou descuido, porque um nome é tão grande que apaga todos os outros,  por mesquinhez, ou por puro preconceito. O resultado é que muitos nomes nunca chegam a ser conhecidos ou outros só o são mais tarde, muitas vezes postumamente. No que respeita à ciência e às mulheres, tal foi – e certamente que pelo menos em alguns lugares ainda é  – muito comum. Em muitos casos, foi preciso resiliência, obstinação, superação e teimosia para iniciarem uma carreira na ciência e, depois, ao longo da mesma, foram vítimas de puro preconceito de género: eram consideradas inferiores ou ignoradas apenas por serem mulheres. É de situações desse tipo que trata o livro O Efeito Matilda, As mulheres cientistas que a História tentou esquecer.

    A sua autora, Filipa Almeida Mendes, dá-nos a conhecer o caso de 18 mulheres, entre as quais uma portuguesa – Branca Edmée Marques – que trabalhou com Curie e foi a primeira catedrática de Química em Portugal, a primeira mulher de Einstein – Mileva Marić – e a médica e investigadora francesa Marthe Gautier que foi fundamental na deteção do cromossoma associado à síndrome de Down.

    Para além da história das mulheres, o livro explica ainda, entre outros aspetos, a origem do termo “efeito Matilda” e dá-nos conhecer dados estatísticos atuais sobre o número de homens e mulheres a trabalhar em ciência. Para ler, sem dúvida.

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    Jun 20, 2026
  • Homo Creator

    Ana Teresa Alves

    Por muitos que se leia ao longo da vida, há alguns livros que nunca esquecemos. Um deles foi para mim o Homo Creator – O Génio e a Perversidade da Espécie que Dominou o Mundo. De forma muito clara explica-nos, entre muitas coisas, como as ciências e a humanidade precisam uma da outra, como os instintos e as emoções são importantes, como a natureza é nossa mãe, como muitos dos nossos medos e fobias estão inscritos no nosso património genético com origem nos nossos antepassados pré-históricos, como a cooperação foi importante para o desenvolvimento das sociedades, como os nossos sentidos são muito mais limitados do que os de alguns animais (quem me dera poder ver todas as cores que alguns animais veem…). Além de tudo isto, reduziu-me ao meu devido lugar e explicou-me porque a natureza tem sobre mim um efeito tão apaziguador, um banho no oceano um efeito tão regenerador e porque prefiro determinadas paisagens a outras.  É de Edward Wilson, o mesmo de que já falei aqui a propósito do prémio literário com o seu nome. Recomendo mesmo.

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    Jun 10, 2026
  • Alan Turing

    Ana Teresa Alves

    O matemático que decifrou códigos e foi o precursor da inteligência artificial. 

    Das poucas vezes que recorro à Inteligência Artificial para verificar uma mensagem de SMS escrita numa língua estrangeira que envio para algum amigo internacional, pergunto-me (por vício profissional de linguista) se do outro lado se vai perceber e invariavelmente lembro-me do teste de Turing e dele próprio. É a Alan Turing, génio matemático dotado de uma inteligência multifacetada, que se deve a criação da máquina que, durante a II Guerra Mundial, conseguiu decifrar as comunicações nazis, cifradas pela máquina Enigma, encurtando assim a duração da guerra em pelo menos dois anos e contribuindo para a vitória dos aliados. A história deste processo é-nos contada no livro de banda desenhada O Caso Alan Turing, História Extraordinária e Trágica de um Génio (Ed. Levoir). Mas não é tudo. O livro aborda também a questão da sua homossexualidade, vivida num tempo em que era considerada um crime. Condenado, e em alternativa à prisão, Turing opta por uma tratamento de castração química, acabando por morrer envenenado por cianeto, não se sabendo ao certo se se tratou de um suicídio.

    Para além da banda desenhada, o livro inclui ainda uma espécie de anexo, intitulado “Bem-vindos a Bletchley Park”, local onde decorreu o processo de decifração, que nos descreve em termos mais técnicos e com fotografias esse processo, nos dá conta do reconhecimento que obteve posteriormente, e apresenta indicações práticas para quem quiser visitar o lugar.  O livro é da autoria de Arnaud Delalande e Éric Liberge e, para não variar, vale mesmo a pena ler, ainda que já se conheça a história deste homem, considerado um pioneiro das ciências da computação e da IA.

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    Jun 3, 2026
  • Animais

    Ana Teresa Alves

    Há precisamente uma semana (no dia 20 de maio), celebrou-se o Dia Mundial das Abelhas. Fiquei a saber disso, porque, de repente, nas únicas duas redes sociais de Internet que frequento, começaram a surgir videos e outros tipos de publicações sobre esses animais, por vezes, incomodativos, mas fundamentais para a nossa vida e para o nosso planeta.

    Isto fez-me lembrar de um livro de que tomei conhecimento através do jornal The Guardian e que comprei logo que pude por causa daquilo a que se propunha: explicar-nos como é que os animais – aranhas, pinguins, alforrecas, gafanhotos, entre muitos outros – inspiraram cientistas e inventores a resolver problemas difíceis. Os morcegos, por exemplo, serviram de inspiração para os sonares e os tubarões ajudaram no desenvolvimento de fatos de banho que permitiam aos seus utilizadores nadar muito mais depressa. Trata-se do livro Animais Inventores, de Christian Dorian e Gosia Herba.

    Ganhou um prémio literário infantil britânico (Blue Peter), mas, como não me canso de repetir, todo o bom livro infantil é um bom livro para a adultos, ou seja, é simplesmente um BOM livro, ainda com o adicional das ilustrações. Recomendo, pois.

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    Mai 27, 2026
  • Nas suas mãos

    Ana Teresa Alves

    Leïla Slimani é uma romancista, e também jornalista, sobejamente reconhecida e premiada. Mas nem só de romances é constituída a sua obra. Em 2024, foi lançado em Portugal o livro, em forma de banda desenhada, Nas suas Mãos, com texto seu.

    Narra a vida de Suzanne Noël (1879-1954), médica francesa e pioneira da cirurgia estética, mas também uma feroz lutadora pelos direitos e pela emancipação das mulheres. Para além das inovações que introduziu no plano da cirurgia, cedo percebeu o impacto deste tipo de intervenção na autoimagem e autoestima dos pacientes, incluindo os que ficaram deformados e desfigurados na guerra. Graças a este livro extraordinário, não só aprendi muito sobre as origens desta especialidade médica e sobre a vida (em termos pessoais, não isenta de adversidades) desta mulher notável, como também fiquei a conhecer o artigo  que o Doutor José Manuel Amarante (Professor Catedrático Emérito da Universidade do Porto) escreveu sobre ela e que está disponível aqui: https://scielo.isciii.es/pdf/cpil/v47n1/pt_1989-2055-cpil-47-01-0001.pdf.

    Por último, o livro conta com a magnífica ilustração de Clément Oubrerie, cartoonista francês, que, infelizmente, morreu precocemente em março passado.

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    Mai 19, 2026
  • A Ordem do Tempo

    Ana Teresa Alves

    Numa obra sobre um tema que exerce sobre mim, que não sou física, mas sim linguista*, um imenso fascínio – o tempo – encontrei não só um livro maravilhoso, mas também um autor que passei a acompanhar e a comprar com uma fidelidade canina. Falo do livro The Order of Time/A Ordem do Tempo e de Carlo Rovelli, um físico teórico e um divulgador notável. Nesse livro, ele fala do tempo de uma forma que me tocou e não esqueci. É um daqueles livros do qual jurei a mim mesma nunca me separar. Infelizmente, ou está perdido cá em casa ou, num momento de distração, emprestei-o a alguém que não sei quem foi (problema resolvido, pois acabei de encomendar outro). A todos os que gostem de ler sobre tempo ou queiram simplesmente ler um grande divulgador de ciência, aqui fica a recomendação.* Por acaso, o tema da minha tese de doutoramento incidiu sobre um dos aspetos do tempo na língua, mas o meu fascínio pelo tema vai muito para além disso.

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    Mai 13, 2026
  • Línguas

    Ana Teresa Alves

    Neste dia Mundial da Língua Portuguesa, presto-lhe a minha homenagem, e nela a todas as línguas (o que seria de nós sem elas? O que somos nós quando ela nos falta?), recomendando a leitura do livro O que nos Torna Humanos, de Victor D. O. Santos, ilustrado por Anna Forlati. Está lá tudo. Para além de que está belissimamente ilustrado e é breve (até nisso é perfeito!).Por decisão da UNESCO, foi considerado  o livro infantil oficial da Década Internacional das Línguas Indígenas. Só eu já comprei pelo menos 10 exemplares, não para açambarcar, mas para oferecer, claro. Sempre que o vejo numa livraria, não resisto e compro pelo menos mais um. Haverá sempre alguém a quem o dar.

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    Mai 5, 2026
  • Radium Girls

    Ana Teresa Alves

    A história das mulheres que descobriram os perigos da radioatividade

    Hoje falo do livro Radium Girls, de Cy. Trata-se de um livro em banda desenhada que nos dá a conhecer uma tragédia ocorrida cerca dos anos vinte do século passado, na época em que o rádio, descoberto por Pierre e Marie Curie, era visto como algo milagroso, associado à saúde e ao progresso, ignorando-se os efeitos nefastos do seu manuseamento. O livro foca-se na história de operárias que pintavam mostradores de relógios com uma tinta luminescente à base de rádio, o que permitia que fossem vistos no escuro. Levavam os pincéis com a tinta aos lábios (lip dip paint)para aumentar a precisão da pintura, ingerindo rádio de cada vez que o faziam. Embora as empresas lhes garantissem que tal era seguro, anos depois começaram a adoecer (os primeiros sintomas eram a dor e perda de dentes e depois dores nos ossos e articulações) e a morrer. A sua tragédia não foi, contudo, em vão, pois não só conduziu à aprovação de leis para proteger os operários norte-americanos como também fez avançar a investigação e o conhecimento sobre os efeitos negativos das radiações. Para além da escrita, a paleta de cores usada torna o livro lindo. Fica, pois, a recomendação.PS. Apesar do título inglês, o livro está traduzido para português e publicado pela Arte de Autor.

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    Abr 28, 2026
  • Livros

    Ana Teresa Alves

    Hoje é o dia mundial do livro e presto-lhe a minha homenagem: poucos sítios me deixam tão feliz e relaxada quanto as livrarias. Aposto que a minha tensão arterial baixa quando entro numa. Sou uma turista de livrarias. Antes de ir a qualquer cidade pela primeira vez já fui ver à Internet que livrarias lá há e faço questão de, no primeiro dia nessa cidade, ir logo a uma delas. Não me importa que faça frio ou faça calor, que tenha de andar muito a pé ou passar bastante tempo em transportes ou à procura de lugar para o carro. Refiro-me a livrarias-livrarias, mas também a secções de livros em lojas de museus, em instituições de apoio à ciência, em centros de divulgação, em panteões nacionais, entre outras, onde já comprei magníficos livros. Silenciosas ou barulhentas, grandes ou pequenas, cheias ou meio vazias são, para mim, sempre maravilhosas e dificilmente saio de uma delas de mãos vazias. Por isso, os meus parabéns ao livro, aos livreiros, aos seus autores e a todos os que trabalham para que eles possam existir.

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    Abr 23, 2026
  • Marie Curie

    Ana Teresa Alves

    A cientista que se transformou num ícone da ciência

    Marie Curie é uma das maiores personalidades de sempre da ciência e, certamente por isso, é também das mais biografadas, seja através de biografias propriamente ditas – há-as para todas as idades – seja através de outros livros biográficos. Confesso que sou uma colecionadora dos livros sobre a vida dela. Sempre que me deparo com um livro que ainda não tenho, seja antigo ou recente, compro-o de imediato. Por isso, falo hoje de um livro que, tendo já quase dois anos, foi agora publicado em Portugal pela Temas e Debates com o título Os elementos de Curie. Como o brilho da radiação iluminou o caminho para as mulheres na ciência. É um livro biográfico sobre Marie Curie, mas que, diferentemente de outras biografias dela que já li, se foca muito no seu papel de mulher e mãe, dá o devido destaque às pessoas que trabalharam com ela, de forma especial às mulheres e ao seu percurso, e tem ainda belas fotografias, dela, de outros cientistas, de familiares seus, entre outras. É da autoria da Dava Sobel, a mesma jornalista que escreveu o livro Longitude, de que já falei há uns artigos atrás. Mais um livro a propósito do qual repito: leia e maravilhe-se.

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    Abr 20, 2026
  • Santiago Ramón y Cajal

    Ana Teresa Alves

    O cientista que desvendou o mistério dos neurónios e desenhou o cérebro.

    Celebrou-se há cerca de um mês a Semana Internacional do Cérebro e, pelo que pude ver nas redes sociais, esta semana foi assinalada, e bem, de várias formas, entre as quais através de idas às escolas de neurocientistas. Tudo isto me fez lembrar de um livro sobre a vida de Ramón y Cajal (1852-1934) de que tomei conhecimento através dos meus sobrinhos mais novos. É um livro escrito em espanhol (creio que não está traduzido para português) e dá-nos a conhecer a vida desse médico natural de Petilla em Aragón (Espanha), que em 1906 veio a ganhar, juntamente com o italiano Camillo Golgi (1843-1926), o prémio nobel de Fisiologia e Medicina. Filho de médico, Ramón y Cajal tinha muito talento para a pintura e queria seguir essa carreira, mas acabou por ir estudar medicina ao mesmo tempo que acalentava o sonho de desenhar o corpo por dentro. E assim aconteceu. Fez magníficos desenhos do que observou ao microscópio, em particular do cérebro, desenhos esses que já foram objeto de várias exposições, como a que ocorreu em 2018 na Grey Art Gallery, em Nova Iorque, intitulada “The Beautiful Brain: The Drawings of Santiago Ramón y Cajal”. É considerado o pai das neurociências modernas.Trata-se de um livro para crianças, mas nunca nos devemos esquecer de que um bom livro para crianças é sempre um bom livro para adultos, pelo que aqui fica a recomendação de Ramón Y Cajal: el Científico Que Descubrió Las Neuronas de Nuestro Cerebro.

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    Abr 14, 2026
  • Carl Linnaeus e Georges-Louis de Buffon

    Ana Teresa Alves

    Todas as pessoas minimamente atentas aos livros sabem que há vários prémios literários, o mais conhecido dos quais, atrevo-me a dizer, será o Nobel da Literatura, atribuído anualmente pela Academia sediada em Estocolmo. Menos pessoas saberão, contudo, que também há diversos prémios especialmente destinados a obras de não ficção ou que integram essa categoria. Um deles é o  PEN/E.O. Wilson Literary Science Writing Award. Criado em 2011, distingue obras na área das ciências físicas ou biológicas, e entre os seus fundadores conta-se o ator Harrisson Ford (esse mesmo, o Indiana Jones). Os outros dois fundadores são o biólogo e naturalista norte-americano Edward O. Wilson (1929-2021) e a E. O. Wilson Biodiversity Foundation, com o seu nome.Em 2025, a obra vencedora, que também venceu o Prémio Pullitzer (na categoria Biografia), foi o magnífico livro Every Living Thing: The Great and Deadly Race to Know All Life, de Jason Roberts, (bem) traduzido para Português, com o título A Invenção da Biologia – Linnaeus, Buffon e todos os seres vivos.Como o título indica, é dedicado à vida, à carreira e ao trabalho de Carl Linnaeus and Georges-Louis de Buffon. Nascidos ambos nascidos em 1707, mas com origens sociais muito diferentes, tinham em comum a obsessão pela classificação dos seres vivos, num tempo em que o termo Ciência não tinha o significado que hoje tem, mas onde já havia, tal como hoje, disputa, rivalidades e aventuras. Para além da vida e das contribuições destes dois homens e daqueles que os rodearam, ficamos ainda a saber como funcionava o ensino nas universidades dos seus países, como o ensino da medicina sempre foi disputado, como se “tratavam” doenças, para as quais não havia, na realidade, tratamento, entre muito outros aspetos. É, a todos os níveis, digno de ser lido.

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    Abr 11, 2026
  • Alexandre Yersin

    Ana Teresa Alves

    Os romances são à partida obras de ficção. Mas há pelo menos um escritor que se dedica a escrever romances SEM ficção. Trata-se do escritor francês Patrick Deville e, de entre os livros que fazem parte desse seu projeto, destaco o Peste e Cólera, publicado em Portugal pela Tinta da China. Através dele, ficamos a conhecer a vida e o trabalho do suíço naturalizado francês Alexandre Yersin (1863-1943). Cientista e discípulo de Pasteur, é a ele que se deve a descoberta do bacilo da peste. O livro descreve-nos, entre muitos outros aspetos,  como isso aconteceu e que o facto de ter ganho essa corrida ao seu rival, o japonês Shibasaburo Kitasato (1853-1931), se deveu também à circunstância de ter trabalhado em condições mais precárias, sem estufa, ao passo que Kitasato tinha uma estufa e realizou a sua investigação num verdadeiro laboratório de hospital. Também na ciência a sorte desempenha o seu papel. Ficamos também a saber que Yersin foi um cientista muito particular, pois preferiu viajar a passar a sua vida num laboratório e tinha interesses muito diversificados. Mas nada do que eu diga faz jus a este livro magnífico. Só lendo mesmo.

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    Abr 1, 2026
  • Longitude

    Ana Teresa Alves

    O problema e a descoberta que mudou a navegação mundial

    Um dos melhores lugares para se ficar a conhecer ou comprar obras de Não Ficção/Divulgação de Ciência são as lojas de museus, ou de outras instituições que divulgam a ciência, são dedicadas a um cientista em particular ou com eles têm alguma relação. Um exemplo de uma dessas lojas é a dos Royal Museums Greenchich, e hoje falarei apenas de um maravilhoso livro de que só tomei conhecimento quando lá estive, intitulado Longitude, The Story of a Lone Genius Who Solved the Greatest Scientific Problem of His Time, de Dava Sobel. O livro conta-nos de forma rigorosa e bastante detalhada, mas vívida e acessível, o quão difícil foi conseguir encontrar uma forma de calcular de forma precisa a longitude, em particular na navegação marítima. Inúmeras vidas se perderam por causa disso, de tal ordem que em 1714 o parlamento britânico aprovou o Longitude Act, um documento legislativo que tinha como objetivo resolver esse problema. Criou-se um grupo para avaliar propostas de solução bem como prémios monetários, cujos valores variavam em função do grau de rigor do método proposto para determinar a longitude de um navio no mar. A corrida ao prémio envolveu astrónomos e relojoeiros, entre outros protagonistas e é, a todos os níveis, extraordinária. Só mais uma coisa: a introdução do livro é de Neil Armstrong que foi (esta informação é para os muito novos), a primeira pessoa a andar na Lua. Leia e maravilhe-se.

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    Mar 27, 2026
  • Coração

    Ana Teresa Alves

    A história de um transplante e a história da medicina do coração

    Um dos melhores livros que li em 2025 foi The Story of The Heart, da jornalista e médica britânica Rachel Clarke, que não está, tanto quanto sei, na presente data publicado em Portugal. Descreve o caso, ocorrido naquele país entre 2016 e 2017, de um transplante de coração entre duas crianças cujas famílias, ao contrário do que acontece em regra em situações idênticas, acabam por vir a conhecer-se. Como seria de esperar, é, do ponto de vista humano, muitíssimo tocante, faz-nos refletir sobre como todos estamos ligados, como a nossa vida depende, de facto, dos nossos semelhantes ainda que nunca venhamos a conhecer muitos deles e também do que parece ser, à falta de melhor explicação, o acaso. Mas é muito mais do que isso. Sendo a sua autora médica, ficamos ainda a saber como ao longo dos tempos a cardiologia, a medicina de transplantes, as cirurgias cardiotorácicas, entre outras especialidades médicas próximas destas, evoluíram, quem foram os seus protagonistas e detalhes tão interessantes como, por exemplo, que o cirurgião Alexis Carrel recorreu a uma bordadora para o ajudar no desenvolvimento da técnica para religar vasos sanguíneos. E mais não conto, para não retirar o prazer a futuros leitores. Muito justamente, este livro veio a ganhar em 2025 o Women’s Prize for Non-Fiction.

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    Mar 26, 2026
  • O início

    Ana Teresa Alves

    Este blogue é dedicado a obras de não ficção, em especial àquelas em que se faz ou também se faz divulgação de ciência.

    A literatura e as obras de ficção são algo maravilhoso, sine quibus non, mas também na não ficção e/ou na divulgação de ciência encontramos obras magníficas, que muitas vezes nos passam ao lado, até porque, salvo raras exceções, não estão em lugar de destaque nas livrarias. Muitas vezes, têm, injustificadamente, a fama de não proporcionarem ao leitor o mesmo prazer que a ficção, ou considera-se que prazer não é compatível com aprender ou presume-se ainda que nelas não há literariedade ou poesia. Como se a vida real não contivesse, ela mesma, tantas vezes poesia, aventuras, beleza, imaginação e muito mais, como se os ficcionistas não se inspirassem tantas vezes na não ficção, como se na ciência não houvesse verdadeiras aventuras e histórias incríveis, como se cada avanço científico não contivesse em si aventura, como se, como se, como se…

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    Mar 26, 2026

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